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Onde mora o perigo nas redes sociais?

17 Mar

Matéria que saiu no jornal “Gazeta do Sul” com um pouquinho da minha participação. 🙂
As jornalistas responsáveis são Luana Rodrigues e Maria Helena Lersch.
Disponível (versão original) em: http://www.gaz.com.br/noticia/397448-onde_mora_o_perigo_nas_redes_sociais.html
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Mais de 1 bilhão de pessoas estão no Facebook e o número de usuários cresce a cada dia. Pesquisa realizada pela Socialbakers, empresa que produz estatísticas sobre mídias sociais, aponta que em 2012 o cadastro de brasileiros na rede social passou de 35,1 milhões para 64,8 milhões. Atualmente, o País ocupa a segunda posição no ranking de usuários, perdendo apenas para os Estados Unidos. Não há dúvidas de que a rede caiu no gosto popular, mas se por um lado ela diminuiu distâncias e facilitou a comunicação, por outro gerou a exposição excessiva da imagem.

Falar tudo o que se pensa por meio da rede social pode gerar consequências. Antes, as opiniões se resumiam a pensamentos ou no máximo comentários em uma roda de amigos. Hoje, estão expostas publicamente nas timelines e sujeitas à livre interpretação. O usuário pode usar o Facebook para narrar a si mesmo e se autoeditar, colocando em seu perfil apenas o que julgar necessário. No entanto, em alguns momentos, pode ultrapassar a tênue linha que separa o certo do errado.

Reclamar do chefe ou da empresa em que trabalha, usar o espaço para se queixar da rotina, compartilhar tudo o que vê pela frente e postar fotos inadequadas são apenas algumas das atitudes que já criaram dor de cabeça para muitos usuários do Facebook. Mais recentemente, as empresas começaram a observar o comportamento de seus funcionários no espaço virtual, e há quem já tenha sido demitido por falar o que não devia na rede.

O problema ocorre quando as pessoas esquecem que o conteúdo postado no perfil retrata só opiniões pessoais. Muitas vezes motivados pela necessidade de pertencer a um grupo, ou de exibir singularidade, acabam fazendo da rede social um mural.

Quando a preocupação com a privacidade deixa de existir, aumenta-se o risco de que a rede seja usada como uma válvula de escape do cotidiano ou para a manifestação de desejos e sentimentos. O ponto mais difícil é saber como se comportar sem prejudicar a carreira ou a imagem pessoal.

Bom-senso na internet é fundamental

Para a mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação, Rebeca Recuero Rebs, que realiza pesquisas na área da cibercultura, a necessidade de expor a vida nas redes sociais não é algo totalmente novo. Segundo ela, o ser humano sempre buscou status, reputação, popularidade e uma série de características valorizadas pela sociedade. “Essa necessidade de afirmação está diretamente associada à busca pelo pertencimento a grupos sociais. A grande diferença é que agora as coisas tomam uma dimensão muito maior, devido à potencialização que a internet possibilita”, explica.

Conforme Rebeca, ser ouvido, reconhecido e, quem sabe, admirado (ou até mesmo odiado) por um grande número de pessoas tornou-se mais fácil tanto pela velocidade de difusão como pela grande visibilidade que as informações atingem com as tecnologias. “Essa busca excessiva pela exposição nas redes sociais na internet nada mais é que um comportamento típico da nossa sociedade, caracterizada pela espetacularização da vida cotidiana”, argumenta.

A diferença é que a internet possibilita alcançar uma visibilidade muito maior. O que é publicado na timeline do Facebook, por exemplo, pode ser visto em poucos segundos tanto por quem é colega de trabalho quanto por quem mora em outro país. Para a pesquisadora, pensar o quanto essa exposição pode ser boa ou ruim está diretamente associado ao bom- senso. “Ela é boa quando se busca uma interação social focada na construção de relacionamentos, no reconhecimento social, ou até mesmo na disseminação de informação. Mas se torna ruim quando pode prejudicar o sujeito ou ainda outra pessoa”.

Uma das dicas para não cometer gafes nas redes sociais é ler diversas vezes o texto antes que ele seja publicado. Isso serve para corrigir possíveis erros de digitação ou ortografia, mas também para refletir sobre a necessidade de realmente dizer o que se está pensando. O duplo sentido também deve ser evitado.

Entre os erros mais frequentes de quem interage por meio das redes sociais está o de pensar que o espaço virtual se constitui em um mundo à parte ou uma terra sem leis, onde tudo é permitido e não há punições. No entanto, o mundo virtual é tão real quanto o mundo concreto. “Ambos não possuem delimitações de começo e fim. Significa que se misturam, constituindo o que vivenciamos hoje. Não é possível separar o perfil de um sujeito nas redes sociais da internet de seu perfil concreto. As pessoas associam diretamente o que veem na internet com o que pensam sobre o outro fisicamente”, avalia Rebeca.

Em resumo, o ideal é que os usuários de redes sociais na internet se portem da mesma maneira como agiriam fora do mundo virtual. É importante lembrar que tudo o que for dito nas redes pode ter o mesmo peso – ou até mais, por causa da exposição – que na vida concreta. É válido ter consciência de que as publicações ficam registradas e não há como controlar a disseminação desse conteúdo. “Isso pode ser usado contra cada um de nós futuramente. Por isso, é fundamental perceber que o mundo virtual não é um mundo à parte, mas sim mais um local público onde tudo o que você diz, publica, comenta, curte ou critica poderá ser lido e/ou acessado por pessoas situadas nos lugares mais diversos do mundo”, diz Rebeca.

 

Passou de brincadeira para demissão

Em setembro do ano passado, após o envolvimento em uma polêmica no Facebook, o então secretário da Prefeitura de Cachoeira do Sul, Loir Ítalo de Oliveira Filho, pediu demissão. Na época, véspera de Semana Farroupilha, ele disse em seu perfil que considerava os festejos uma “babaquice”. “Esta chuva poderia se repetir no dia 20 o dia todo. Daí não teria aquele desfile lacaio. Eita que esta Semana Farroupilha é uma babaquice sem tamanho, Deus do céu”, postou. Mais tarde, Oliveira Filho excluiu a publicação e se retratou. “Não reflete em nada no meu trabalho. Quem gosta de cultivar as tradições que o faça. Acho que o tradicionalismo de vocês é bem maior do que eu penso, certo?”.

Seis meses depois do caso, ele voltou a falar do assunto com a Gazeta do Sul e disse que não é contra o tradicionalismo. Para Oliveira Filho, a diferença que a repercussão pode ter está ligada a quem posta o fato no Facebook. “Quando não é alguém público, não dão importância demasiada à publicação”, acredita. Quanto ao desfecho que sua postagem tomou no ano passado, o ex-secretário não se considera prejudicado. “Sou advogado e não político. Ocupava o cargo e dava 100% da minha capacidade. Claro que houve alguns transtornos. Posso afirmar que a maioria da população acha a mesma coisa que postei”, reforçou.

 

Relação de amor e ódio

Ferramenta usada para a aproximação de pessoas, a rede social na internet também pode resultar no término de relacionamentos. Aliada até mesmo em investigações, ela contém informações que podem mostrar o caminho a ser seguido por quem tenta revelar mentiras. Conforme o detetive Silveira (que prefere manter seu nome completo em sigilo), o Facebook facilita o processo investigativo porque dá pistas do que o possível traidor costuma fazer e com quem se relaciona. “Como eu preciso de provas em vídeo e fotos, é necessário sair a campo. Mas as informações iniciais, eu consigo nas redes sociais”, explica.

No entanto, de acordo com o investigador, comentários ingênuos podem levar a insinuações que não se comprovam durante o processo investigatório. “Tem muita gente carente e confusa usando a ferramenta. Porque são simpáticas demais, os companheiros desconfiam que possam estar sendo traídos quando, na verdade, os usuários nem se conhecem pessoalmente. Mas já descobri casos em que a traição virtual se confirmou”, conta Silveira.

É o caso da santa-cruzense Melissa*, que utilizava o Facebook para se comunicar com o namorado, morador de outra cidade. Um dia ela tentou entrar no perfil usando a data de aniversário dele como senha. “E deu certo. Ou nem tanto, pois lendo as mensagens que ele mandava para as outras meninas, descobri que era muito ‘cachorro’. Nos finais de semana que eu ia para a cidade onde ele morava, ele dizia para as outras que precisaria viajar a trabalho e não atenderia aos telefonemas”, conta.

Segundo Melissa, o rapaz dizia as mesmas coisas românticas para todas as pretendentes. “Em uma das conversas, quando uma menina perguntou por mim, ele disse que ‘o que os olhos não veem o coração não sente’”, revela. Mas, como geralmente os erros que cometemos e as situações nas quais nos envolvemos sem sucesso deixam alguma lição, Melissa brinca. “Depois de tudo isso, romance à distância eu não quero mais. E, de preferência, quero um namorado sem Facebook.”


Publique apenas o que falaria ao chefe

Com o aumento da exposição da vida pessoal nas redes sociais, as empresas têm cada vez mais acompanhado o que os funcionários fazem na internet. Os empregadores também se preocupam com a forma como eles podem ser citados no meio virtual e a imagem que poderão ter a partir de postagens. Por conta disso, há uma tendência de empresas sugerirem, por meio de um manual de conduta, a postura considerada adequada na rede. Especialistas também aconselham a divulgar apenas o que você falaria em frente ao seu chefe, para que uma publicação não o prejudique no ambiente de trabalho.

Gerente comercial de uma empresa de Santa Cruz do Sul, Francisco* diz que já teve um caso de demissão no local onde trabalha. Um funcionário teria desabafado no Facebook e se referido à empresa de maneira pejorativa. “Outro colega viu a publicação e me informou. Como essa pessoa já não estava bem no trabalho, o que ela disse contribuiu para que fosse demitida”, conta. Segundo Francisco, é comum funcionários utilizarem a ferramenta no horário de expediente. “Curtem e comentam coisas que não têm nada a ver com o trabalho. As pessoas não lembram que existem outros usuários enxergando tudo.”

Outra falha cometida nas redes sociais é a falta de cuidado com as fotos compartilhadas. Nem sempre as atualizações são vistas apenas pelos amigos. Por meio de perfis de terceiros, os gestores também acabam tendo acesso às publicações. “Hoje em dia não precisamos mais ligar a uma empresa para pedir referência do funcionário. Podemos ver o que ele pensa e como é no Facebook. As redes sociais são ferramentas maravilhosas, mas é necessário saber usá-las a favor. Isso, sem contar que as informações publicadas no Facebook podem servir de provas em processos trabalhistas”, afirma.

Mesmo antes de conseguir um emprego, as redes sociais também podem ser um empecilho, já que influenciam nos processos de seleção. Além de utilizar a ferramenta para entrar em contato com os candidatos, empresas de Recursos Humanos (RH) analisam os perfis antes de efetivar a contratação. No caso de seleções para empresas mais conservadoras, as fotos dos candidatos também servem de referência.

As publicações podem até não interferir em um primeiro momento, mas sim durante o processo de seleção. “Não vamos deixar de chamar alguém porque preferimos estabelecer um contato pessoal para conhecer melhor o candidato. Mas, a partir do momento em que estivermos em dúvida, o que é postado nas redes sociais será levado em conta”, revela a assistente de RH Juliana Oliari.

 

EVITE PUBLICAR

– Comentários do trabalho ou chefe
– Fotos com uniforme da empresa
– Discussões entre colegas
– Bastidores da empresa
– Comentários sobre concorrentes
– Erros excessivos de ortografia
– Opiniões preconceituosas
– Informações da vida íntima

*Nome do entrevistado foi alterado para preservar a identidade


fonte: Jornal Gazeta do Sul

 

 

 

Social Network Games e o Vício

25 Jan

Aí está a  entrevista que forneci ao EDITORIAL J do Laboratório convergente do curso de Jornalismo da Famecos/PUCRS. =)
Nela abordo sobre os social games e o vício que causa em seus usuários.

1) EDITORIAL J:   Quando a vontade de jogar vira vício?

REBECA REBS: O jogo pode ser encarado como vício quando o sujeito passa a colocá-lo como sendo uma das atividades essenciais e necessárias do seu cotidiano. Penso que quando este vício é regrado e se reconhece os seus limites, o vício em games enquadra-se na mesma categoria de vícios em outras formas de diversão ou de esporte. Quando passamos a deixar de lado certas atividades necessárias do dia-a-dia em troca dos jogos, encarando o game como sendo mais importante do que elas, penso que este vício atinge o um estágio negativo. Por exemplo, existem casos de pessoas que deixam de trabalhar, de dormir e até mesmo de comer para passar mais tempo no jogo e, consequentemente, evoluir mais rápido no game. Nestes casos penso que a diversão passa a ser um vício destrutivo, ou seja: o jogo passa a nos prejudicar (ainda que não consigamos perceber isto de forma clara em um primeiro momento).

2)    EDITORIAL J: Quais são os principais elementos capazes de prender a atenção do jogador?

REBECA REBS: Além do aplicativo ser uma forma de entretenimento, primeiramente o próprio design atraente, colorido e com a presença de uma grande quantidade de itens virtuais à disposição do jogador, funciona como um atrativo que convida ao sujeito para uma participação e uma personalização interessante do jogo. Outro ponto é a facilidade de acesso ao game. O jogador consegue acessar o aplicativo em diferentes suportes necessitando apenas de alguns “cliques” para realizar suas tarefas no game. Ainda há a simplicidade dos social games  que oferecem poucas dificuldades para o entendimento de suas regras (que são consideradas bastante simples). Há ainda o baixo tempo de dedicação que faz com que o game possa ser jogado várias vezes ao dia e em pequenos intervalos de tempo. Outra questão bastante forte que chama a atenção do jogador é a possibilidade de interação com os amigos de seu próprio site de redes sociais (ou seja, interação com os seus conhecidos). Estas interações também irão gerar certa “obrigação social”, ou seja, os jogadores possuem uma série de comportamentos esperados pelo grupo (como responder aos pedidos de ajuda, enviar gifts, etc.) e isso faz com que o jogador sinta-se responsável também pela evolução de seu amigo no jogo. Por fim, outro fator fundamental para chamar a atenção de um número cada vez maior de jogadores para os social network games é a existência do mecanismo de dependência social que faz com que o jogador dependa de outros para poder evoluir. Assim, há o constante envio de convites para que seus amigos passem a fazer parte da comunidade do jogo, funcionando como uma forma de propaganda gratuita para o game.

3)    EDITORIAL J: Existe algum mecanismo infalível para transformar a diversão em vício?

REBECA REBS: Esta questão está bastante associada à anterior. Veja bem, algo que chama a atenção dos jogadores normalmente é algo bom e que, consequentemente, poderá tornar-se um vício. Penso que há a associação de vários mecanismos estruturais que são muito bem explorados por estes social network games tornando-os “irresistíveis” ao ponto de tornarem os social games um verdadeiro vício para seus jogadores. O primeiro deles é o mecanismo de competição, Este fator estimula os jogadores a voltarem sempre ao game. Por mais que os social network games sejam jogos em continuidade (e aparentemente sem fim), os jogadores insistem em jogar, em cumprir as tarefas e continuar a ultrapassar todas as etapas que são postas no seu caminho pelo game que está sempre inovando. O mecanismo de esforço e recompensa também é fundamental para a transformação destes jogos em vício. O fato de esforçar-se, de “perder” certo tempo plantando tomates (por exemplo) e, ao final disso ser recompensado com um ítem virtual diferente e valorizado pelo grupo de jogadores funciona como um estimulante. Há também um mecanismo  de dependência que gera certa obrigação ao jogador a voltar ao social game. Por exemplo: em determinados intervalos de tempo, ele necessita voltar ao jogo para colher suas plantações, caso contrário elas irão apodrecer. Assim, o jogador não quer que isto aconteça e passa a seguir o tempo estipulado pelo game para retornar pontualmente ao jogo. Por fim, ofato do jogo estar atrelado ao site de redes sociais, faz com que as pessoas sempre que entrarem nesta plataforma lembrem e sejam “chamadas” ao jogo, pois há convites de amigos, há mensagens de novidades do jogo convidando-as para voltar a se engajar neste mundo dos social games.

4)    EDITORIAL J: O gasto de dinheiro real é uma manifestação de vício?

REBECA REBS: Acho que depende. Do mesmo modo que gastamos comprando certos jogos de videogame ou recursos para estes, o gasto de dinheiro concreto em social games pode indicar a vontade de ter acesso a elementos que não seriam possíveis sem este recurso. Ou seja, seria um gasto em “diversão” e não necessariamente a manifestação de um vício. É como um desejo de consumo que para ser realizado, necessita do investimento de recursos financeiros. No entanto, acho que esta ação pode se tornar um vício no momento em que há o gasto de dinheiro concreto além do que o sujeito possui, indicando certa dependência psicológica ao jogo.

5)    EDITORIAL J: Qual a importância do relacionamento com os demais jogadores em um jogo? E do vínculo com os amigos das redes sociais?

REBECA REBS: Nos social network games esse relacionamento é um dos segredos do seu sucesso. Dentro do jogo, as interações entre jogadores se mostram a partir de ações esperadas pelos jogadores. Seriam como certas regras de comportamento, ou seja: se você faz parte do jogo, deve agir como o grupo social do jogo age. Assim, se eu vou lhe ajudar na colheita de seus tomates em sua fazenda, você também deveria retribuir. Do mesmo modo, como já apontei anteriormente, o jogo estimula o convite de novos amigos para participarem, pois somente tendo mais “vizinhos”, mais “colegas” ou mais “parceiros”, o jogador poderá adquirir itens diferenciados ou até mesmo passar de determinadas etapas oferecidas pelo jogo. Isso dá uma grande visibilidade ao social network game que passa a ser difundido pela rede muito rapidamente. O fato de ser jogado entre amigos (conhecidos) é outro fator interessante destes jogos (como já apontei). Jogar com o seu namorado, com suas melhores amigas, suas tias ou pessoas que você não tem um laço social tão forte parece estimular esta interação e alimentar as dinâmicas sociais  da competição e da cooperação.

6)    EDITORIAL J: Quais são os cinco games mais viciantes que você já jogou? Por quê?

REBECA REBS: Agora no momento eu não consigo lembrar exatamente quais foram os jogos mais viciantes que já joguei. Porém acredito que a eles eram e tornavam-se viciantes exatamente por possuirem boa parte das características que apontei anteriormente. Acredito que é trabalhando estas características de forma adequada e observando as apropriações sociais que os próprios jogadores fazem COM e NOS games é que as empresas conseguirão entender o seu público e, assim, ter sucesso com estes aplicativos voltados para o entretenimento.

 

Redes sociais são praças modernas?

13 Jun

No post de hoje apresento uma entrevista que forneci para a querida aluna Vanessa Maciel. =)

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Por Vanessa Maciel*

 

O modelo de comunicação básico diz que o meio é o lugar por onde passam as mensagens que enviamos. Com as mídias sociais, nossas redes de contato, ou redes sociais, viraram o meio – ou um meio de compartilhar, reclamar, conversar, fazer contatos. Nunca o termo “fazer a social” caiu tão bem, não é?

Como a comunicação no Twitter, Facebook, blogs , Google + e a maioria das mídias sociais, os espaços informacionais são mais públicos. A gente fica sabendo de muita coisa interessante e inovadora, mas como tudo tem um lado ruim, também tomamos conhecimento que fulana está com TPM, ou que o dono do perfil está indo tomar banho, ou que sicrana quebrou a unha. O tipo de coisa que faz toda diferença para o mundo, sabe? Hora de ativar o filtro, rápido e mortal.

Os espaços que servem como meio para nossas mensagens, as timelines, as walls e os espaços para comentários, são as praças modernas. O Facebook  possibilita que várias pessoas comentem em um post seu. Você pode ir ali e comentar nessa conversa, ir ali e dar sua opinião, ir ali e curtir. Como uma praça ou uma festa. Estamos vivenciando uma mudança significativa na comunicação: pessoas estão se comunicando mais, compartilhando mais, broadening their concepcions of the world. Se isso é moderninade, que ela seja bem vinda. A praça é nossa!

Para entender um pouco mais sobre como a sociedade utiliza essas ferramentas, Vanessa Maciel entrevistou Rebeca Rebs, jornalista, pesquisadora em Cibercultura, doutoranda e mestre em Ciências da Comunicação. Rebeca também é professora de MBA e palestrante em torno dos temas redes sociais, social games, identidade virtual, comportamento, consumo e cultura digital.

 

As mídias sociais estão tendo um papel importante na construção de uma nova democracia?

Sim. O surgimento das mídias sociais vem das apropriações e usos de ferramentas tecnológicas que priorizam uma interação participativa, colaborativa, criativa e, acima de tudo: livre. Há novos espaços virtuais que suportam o desenvolvimento de uma cultura que faz manifestação social, preza pela circulação livre de informações e pela busca de transparência em processos políticos. Estes espaços são ambientes coletivos de construção democrática, pois pessoas “comuns” e de diferentes classes sociais manifestam-se de forma igual e constroem ideias que são rapidamente distribuídas para muitas outras pessoas. Além do potencial massivo, essas ideias viabilizam a organização de ações sociais que não seguem a estrutura “tradicional” do poder, pois o cidadão comum adquire voz e visibilidade para o que está publicando e/ou organizando. Com um blog, site ou uma conta no Twitter, as pessoas viram protagonistas de mensagens capazes de transformar ações políticas e promover uma democracia que “nasce” no ciberespaço. O controle desta informação é feito de maneira coletiva: as formas de movimentação, escolha, filtragem e difusão da informação se dão a partir de pessoas comuns (produção de conteúdo descentralizada). Assim, essas redes sociais associadas ao suporte de diferentes ferramentas são verdadeiras mídias com a incrível capacidade de promover a democracia.

 

As pessoas se sentem mais à vontade para reclamar ou compartilhar uma opinião nas redes? Se sim, por quê?

Sim – e por inúmeros fatores. Um deles é que as pessoas podem ter a “proteção” do anonimato, o que confere “segurança física” (ainda que descredibilize a informação pela falta de identidade objetiva). O sujeito conta com ambientes virtuais que estimulam debates e dinamizam a divulgação de informações, desenvolvendo uma cultura de “compartilhamento” e liberdade de expressão, que impulsiona o desejo de participação e desperta um potencial crítico: as pessoas começaram a ver, julgar e construir opiniões de forma mais livre e “sem medo”. Observe a quantidade de blogs políticos que são desenvolvidos por cidadãos comuns e que possuem uma grande audiência e credibilidade social.

Também, com a facilidade de se relacionar com pessoas geograficamente dispersas, encontra-se outra forma de partilhar valores comuns que tem o suporte de redes sociais que se constroem em torno de um capital social institucionalizado, proveniente da formação de verdadeiras comunidades virtuais. Isso significa que a informação que alguns disponibilizam na rede pode ter o apoio e a divulgação de seus amigos que partilham da mesma ideia, o que é mais um estímulo para o sujeito se sentir encorajado a compartilhar sua opinião e possíveis reclamações pela Internet.

 

A presidente Dilma já disse que “A internet, do ponto de vista da política, é a moderna praça”. Também já se foi dito que mídias sociais são a Ágora dos tempos modernos. Você concorda?

Sim, já que a internet oferece e amplia os lugares para os cidadãos discutir, construir, colaborar, protestar e divulgar informações em uma escala potencial jamais vista. Há a construção de um espaço público (ainda que virtual) que suporta discussões de cidadania e política, auxiliando no desenvolvimento de um senso crítico individual e coletivo a partir do estímulo à participação e à expressão. É visível o quanto discussões criadas nestes espaços virtuais são levadas em conta por grandes autoridades e instituições, principalmente pelo seu grande poder de disseminação, “recirculação” e capacidade de formar opiniões. Por isso a referência à “praça moderna”: um lugar público onde nos encontramos para manifestar livremente opiniões, em especial, a política. É importante lembrar que nem todos possuem acesso a esta “praça” (o que não inviabiliza esta qualidade democrática do meio).

 

Qual a melhor vocação das redes sociais: pessoal ou corporativa?

Não há como determinar “a melhor”. Seja uma vocação pessoal (voltada para a formação de laços sociais ou a busca por informações de interesse particular) ou uma vocação corporativa (busca por visibilidade e divulgação de ações), o importante é compreender o objetivo do site onde se buscará a construção da rede e agir de acordo com os valores preconizados pelo ambiente, para então, adquirir resultados positivos. Tudo depende da forma como os sujeitos vão se apropriar do site (e da função para qual ele foi criado), realizando um uso que beneficie o seu objetivo pessoal ou corporativo.

 

Sobre a durabilidade do que está sendo exposto – você acredita que coisas ficam obsoletas muito rápido devido à rapidez no tráfego de informações?

De certo modo, sim – mas isso não se deve unicamente à forma de constituição do meio, mas ao modo como as pessoas trabalham nele. Estamos inseridos em uma sociedade que valoriza a informação, o imediato e a velocidade de interações, o que implica no surgimento de inúmeras informações ao mesmo tempo. O excesso de informações é característico da sociedade atual, sendo o critério “atualidade” um dos modos de valorização e seleção do que você vai divulgar na rede. Algumas informações são potencializadas ainda mais pelas mídias sociais, adquirindo visibilidade muito grande. Outras ficam obsoletas pelo tráfego informacional devido à rápida “desvalorização” da informação, considerada “passado” ou sem importância para o momento. Porém há o outro lado: pela capacidade de memória (de armazenamento de informações), a web possibilita que discussões geradas em torno de determinado assunto voltem à tona. O que foi publicado, fica lá… exposto, pronto para ser lido novamente por milhões de outras pessoas. Isso propicia um possível movimento de “recirculação” da informação, capaz de torná-la, novamente, pauta (ou até mesmo notícia) pelos próprios internautas que divulgam, apropriam e ressignificam estas informações para as suas redes sociais.

 

Vanessa Maciel é publicitária, com os dois pés no jornalismo. Faz pós-graduação em marketing digital e trabalhou como redatora publicitária. Hoje é gestora de conteúdo e assistente de convergência na i2 Inteligência,  além de colaborar com o portal GogoJob.