Identidade pelo texto nos Social Games

23 Nov

Faz pouco tempo que desenvolvi um artigo referente às possíveis formas de manifestações identitárias dos usuários dos Social Games por meio da ESCRITA que eles divulgam para a sua rede social.

Observei os textos divulgados nos feeds de notícia do Facebook, nos perfis dos usuários (na opção “mural”), no envio de mensagens nas “notificações” dos usuários e em grupos de “ajuda” formados em torno do jogo social Frontier Ville.

Parto de que através de uma análise do significado da escrita que é publicada nestes espaços textuais do Facebook, é possível identificarmos pequenos traços que compõe facetas identitárias dos sujeitos, oferecendo assim “pistas” de quem eles são, de seus gostos, de seus valores e de seus grupos de pertença.

Então, tentando entender como o texto construído, visualizado e interpretado possui ligação com o processo de identificação dos jogadores de Social Games (SG), indiquei alguns pontos iniciais (e ainda em desenvolvimento) que parecem ser importantes para a análise do texto como indicador de identidade.

  • Identidade pela produção e entendimento do IDIOMA

Questões referentes à identidade podem ser observadas pelo idioma que é escrito (como por exemplo, alguém que faz um pedido em português, provavelmente é um falante do português). Do mesmo modo, a compreensão do que está escrito nestas mensagens tem ligação direta com a cultura (origens) do sujeito e com as suas competências relacionadas ao idioma apresentando. Significa que o pedido de gifts para o Social Game feito na língua inglesa (padrão do Frontier Ville) limita a compreensão da solicitação aos entendedores do inglês, o que estará diretamente relacionado com a identidade cultural (conforme vimos neste outro post aqui) e competências intelectuais dos jogadores.

  • Identidade pela produção e entendimento de GÍRIAS e SÍMBOLOS escritos

Outra questão relacionada ao entendimento do texto e a possíveis manifestações identitárias está ligada às práticas de significados criadas por grupos sociais que se apropriam de maneiras de construção da linguagem, gerando gírias e outras formas de escrita com intenções possivelmente funcionais ou caracterizadoras de sua identidade. As mensagens apresentam “combinações” de letras que não fazem parte da língua em sua originalidade, como o “heheheheeh”, o “hahahahaah” e o “LOL”, indicando significados de “gargalhadas”, “risos”, abreviações (como a do LOL –laughing out loudly), ou até mesmo estados de espírito dos sujeitos (como as “carinhas” “:)” ou “:(”).

Apesar de esta característica ser “universal” na comunicação mediada pela Internet, ela parece indicar uma identidade coletiva, caracterizando significados particulares de grupos sociais e suas formas de comunicação, como é visualizado também nas publicações escritas referente aos Social Games.

  • Identidade pela produção e entendimento do CAPITAL COGNITIVO DO JOGO

A compreensão de sinais, gírias, símbolos, sentidos e comportamentos a partir de informações que registram elementos de uma comunidade (que nem sempre é compreendida por todos os usuários que fazem parte do mesmo site de redes sociais) é outro indicativo de identidade presente nos SG. Novamente, entra em questão uma identidade coletiva de vários jogadores que partilham, assim, de um capital social comum. É o caso de mensagens onde usuários solicitam visitas em seus sítios do Frontier Ville, pedem ajuda em suas plantações e materiais de construção. Um sujeito que não conhece o SG Frontier Ville e que não tenha informações destes aplicativos nos sites de redes sociais, pode ficar confuso ao verificar que um sujeito pede para que “reguem” os seus amendoins em seu sítio virtual.

  • Identidade pelas ESCOLHAS DO TEXTO PRONTO

Mesmo com discursos prontos disponibilizados pelo próprio aplicativo (ou seja, onde o jogador tem a possibilidade apenas de aceitar ou não o que publicar), as próprias escolhas já podem indicar o que o sujeito quer ou não mostrar para a sua rede social, construindo determinadas impressões (por meio da escrita ou do texto pronto) para os seus amigos.

“…eu não publico as coisas do jogo pra todo mundo. eu escolho as pessoas que eu quero que vejam, pq se não vão me achar um chato de tanta encheção de pedidos relacionados ao jogo…”

Do mesmo modo, ao consentir a visualização de mensagens prontas relacionadas ao jogo para a sua rede social, o  jogador permite com que surjam interpretações (e julgamentos) de sua identidade pelos seus “amigos”.

  • Identidade pelas MANIFESTAÇÕES ESPONTÂNEAS ESCRITAS

Através da escrita produzida pelos jogadores e publicada para a sua rede social (referentes ao jogo), os usuários de Social Games deixam transparecer gostos pessoais para os seus amigos (do mesmo modo que manifestam traços de sua identidade). Assim, as descrições de características pessoais ligadas à própria dinâmica do jogo também podem indicar facetas de sua identidade manifestada pelo texto. Trata-se então de um processo pela qual o sujeito define a si mesmo de forma (talvez) não consciente a partir de símbolos visuais convencionais que seguem dinâmicas sociais específicas de determinados lugares no ciberespaço, como no caso, do Frontier Ville.

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Apesar de ser um estudo inicial (em um artigo que logo, logo será publicado), verifico que será essencial para a minha pesquisa aprofundar esta compreensão dos textos prontos e criados pelos jogadores destes Social Games como ferramentas importantes para visualizarmos e interpretarmos perfis identitários, o que indica a necessidade de compreender estas manifestações por meio da escrita como mais um processo a ser considerado para o estudo de formações identitárias no ciberespaço.

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5 Responses to “Identidade pelo texto nos Social Games”

  1. Cândida Nobre 29/11/2010 at 01:12 #

    Vim responder aqui a sua visita lá no meu cantinho! Adorei acompanhar os seus estudos nesse espaço mais experimental. Eu tô bem, quase louca, as coisas muito corridas, quase sem dar conta desse início de vida professoral, mas feliz! E você, como tá? Cheia de ideias, já deu para ver que tá, hein? eheheheh Adicionadíssima por lá! Beijão! Saudades!!

  2. Luan Iglesias 29/11/2010 at 14:54 #

    Quando vejo post’s como este me pergunto do quão pequenos somos ante a infinitude de conhecimentos que nos rodeia. Confesso que as redes sociais também se titulam como meu objeto de fascínio. Acredito que não representamos o que somos quando manipulamos ferramentas sociais. Acredito que damos papel e personagens ao nosso inconsciente e, assim, nos descobrimos enquanto ser humano, enquanto atores sociais. Neste sentido, gosto de trabalhar com a tese literária de Erving Goffman: “A representação do eu na vida cotidiana”. Meu livro de cabeceira.

    Vou passa a acompanhar com frequência tuas publicações. Por acaso tu és bolsista de doutorado na Unisinos? Nunca te vir por aquelas bandas. Eu ainda sou graduando. Mas um dia chego ao teu patamar. (Risos)

    Um abraço.

  3. rebs 01/12/2010 at 11:03 #

    Olá, Luan!
    Realmente, a amplitude de assuntos que permeiam comportamentos (e identidades) construídas no universo virtual é enorme. No entanto, os estudos focando essa área ainda são bastante superficiais.
    Sobre as questões da apresentação da identidade dos em sites de redes sociais, penso que não se difere por total da maneira natural (e tradicional) do ser humano “arrumar-se para a foto”. No entanto, verifico uma enorme potencialidade e possibilidades de construções identitárias que não eram vistas fora do espaço online. Por esse motivo, penso ainda que nem sempre o que mostramos no ciberespaço não é real, ou seja, não representam o que somos. Questiono-me até que ponto o mundo concreto é que não nos exige um “papel” ou um “personagem” aos atores engajados em um sistema social, enquanto que no universo virtual possuímos certa liberdade de manifestar o nosso “verdadeiro” eu. Assim, penso que há estas duas facetas: a de experimentação e a de liberdade identitária. 🙂 Vale a pena pensar estes dois lados (em breve terei um post sobre isso).
    Abraços!

    Obs: sou bolsista de doutorado da Unisinos…cheguei a dar aulas (no estágio do mestrado) para uma turma de comunicação (sobre redes sociais). E legal saber que você pretende seguir a vida acadêmica. É bem legal! 🙂 Desejo-te sorte nesta corrida!

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  1. Tweets that mention Identidade pelo texto nos Social Games -- Topsy.com - 23/11/2010

    […] This post was mentioned on Twitter by Raquel Recuero and Sonia Bertocchi , Clovis Lima. Clovis Lima said: RT @raquelrecuero: Manifestações identitárias textuais nos Social Games by @rebecarebs – http://www.rebs.com.br/?p=509 […]

  2. Signos e a manifestação do “eu” nos SG - 04/03/2011

    […] Na última categoria, temos a identidade a partir do símbolo. Nesta categoria, encontramos os textos dos perfis e das mensagens enviadas aos amigos, os nicks escolhidos ou ainda as apropriações que usuários realizam  nas mensagens “prontas” fornecidas pelo próprio jogo. Estes signos são regidos por convenções e atrelam-se fortemente à cultura por referirem-se a ideias gerais significativas para determinados grupos sociais. Desse modo, não apenas a compreensão destes signos como o que eles querem transmitir, podem apresentar mais traços identitários a partir de sua compreensão (conforme abordamos em um post anterior sobre identidade e o texto). […]

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