Archive | March, 2013

Onde mora o perigo nas redes sociais?

17 Mar

Matéria que saiu no jornal “Gazeta do Sul” com um pouquinho da minha participação. 🙂
As jornalistas responsáveis são Luana Rodrigues e Maria Helena Lersch.
Disponível (versão original) em: http://www.gaz.com.br/noticia/397448-onde_mora_o_perigo_nas_redes_sociais.html
____________________________________

Mais de 1 bilhão de pessoas estão no Facebook e o número de usuários cresce a cada dia. Pesquisa realizada pela Socialbakers, empresa que produz estatísticas sobre mídias sociais, aponta que em 2012 o cadastro de brasileiros na rede social passou de 35,1 milhões para 64,8 milhões. Atualmente, o País ocupa a segunda posição no ranking de usuários, perdendo apenas para os Estados Unidos. Não há dúvidas de que a rede caiu no gosto popular, mas se por um lado ela diminuiu distâncias e facilitou a comunicação, por outro gerou a exposição excessiva da imagem.

Falar tudo o que se pensa por meio da rede social pode gerar consequências. Antes, as opiniões se resumiam a pensamentos ou no máximo comentários em uma roda de amigos. Hoje, estão expostas publicamente nas timelines e sujeitas à livre interpretação. O usuário pode usar o Facebook para narrar a si mesmo e se autoeditar, colocando em seu perfil apenas o que julgar necessário. No entanto, em alguns momentos, pode ultrapassar a tênue linha que separa o certo do errado.

Reclamar do chefe ou da empresa em que trabalha, usar o espaço para se queixar da rotina, compartilhar tudo o que vê pela frente e postar fotos inadequadas são apenas algumas das atitudes que já criaram dor de cabeça para muitos usuários do Facebook. Mais recentemente, as empresas começaram a observar o comportamento de seus funcionários no espaço virtual, e há quem já tenha sido demitido por falar o que não devia na rede.

O problema ocorre quando as pessoas esquecem que o conteúdo postado no perfil retrata só opiniões pessoais. Muitas vezes motivados pela necessidade de pertencer a um grupo, ou de exibir singularidade, acabam fazendo da rede social um mural.

Quando a preocupação com a privacidade deixa de existir, aumenta-se o risco de que a rede seja usada como uma válvula de escape do cotidiano ou para a manifestação de desejos e sentimentos. O ponto mais difícil é saber como se comportar sem prejudicar a carreira ou a imagem pessoal.

Bom-senso na internet é fundamental

Para a mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação, Rebeca Recuero Rebs, que realiza pesquisas na área da cibercultura, a necessidade de expor a vida nas redes sociais não é algo totalmente novo. Segundo ela, o ser humano sempre buscou status, reputação, popularidade e uma série de características valorizadas pela sociedade. “Essa necessidade de afirmação está diretamente associada à busca pelo pertencimento a grupos sociais. A grande diferença é que agora as coisas tomam uma dimensão muito maior, devido à potencialização que a internet possibilita”, explica.

Conforme Rebeca, ser ouvido, reconhecido e, quem sabe, admirado (ou até mesmo odiado) por um grande número de pessoas tornou-se mais fácil tanto pela velocidade de difusão como pela grande visibilidade que as informações atingem com as tecnologias. “Essa busca excessiva pela exposição nas redes sociais na internet nada mais é que um comportamento típico da nossa sociedade, caracterizada pela espetacularização da vida cotidiana”, argumenta.

A diferença é que a internet possibilita alcançar uma visibilidade muito maior. O que é publicado na timeline do Facebook, por exemplo, pode ser visto em poucos segundos tanto por quem é colega de trabalho quanto por quem mora em outro país. Para a pesquisadora, pensar o quanto essa exposição pode ser boa ou ruim está diretamente associado ao bom- senso. “Ela é boa quando se busca uma interação social focada na construção de relacionamentos, no reconhecimento social, ou até mesmo na disseminação de informação. Mas se torna ruim quando pode prejudicar o sujeito ou ainda outra pessoa”.

Uma das dicas para não cometer gafes nas redes sociais é ler diversas vezes o texto antes que ele seja publicado. Isso serve para corrigir possíveis erros de digitação ou ortografia, mas também para refletir sobre a necessidade de realmente dizer o que se está pensando. O duplo sentido também deve ser evitado.

Entre os erros mais frequentes de quem interage por meio das redes sociais está o de pensar que o espaço virtual se constitui em um mundo à parte ou uma terra sem leis, onde tudo é permitido e não há punições. No entanto, o mundo virtual é tão real quanto o mundo concreto. “Ambos não possuem delimitações de começo e fim. Significa que se misturam, constituindo o que vivenciamos hoje. Não é possível separar o perfil de um sujeito nas redes sociais da internet de seu perfil concreto. As pessoas associam diretamente o que veem na internet com o que pensam sobre o outro fisicamente”, avalia Rebeca.

Em resumo, o ideal é que os usuários de redes sociais na internet se portem da mesma maneira como agiriam fora do mundo virtual. É importante lembrar que tudo o que for dito nas redes pode ter o mesmo peso – ou até mais, por causa da exposição – que na vida concreta. É válido ter consciência de que as publicações ficam registradas e não há como controlar a disseminação desse conteúdo. “Isso pode ser usado contra cada um de nós futuramente. Por isso, é fundamental perceber que o mundo virtual não é um mundo à parte, mas sim mais um local público onde tudo o que você diz, publica, comenta, curte ou critica poderá ser lido e/ou acessado por pessoas situadas nos lugares mais diversos do mundo”, diz Rebeca.

 

Passou de brincadeira para demissão

Em setembro do ano passado, após o envolvimento em uma polêmica no Facebook, o então secretário da Prefeitura de Cachoeira do Sul, Loir Ítalo de Oliveira Filho, pediu demissão. Na época, véspera de Semana Farroupilha, ele disse em seu perfil que considerava os festejos uma “babaquice”. “Esta chuva poderia se repetir no dia 20 o dia todo. Daí não teria aquele desfile lacaio. Eita que esta Semana Farroupilha é uma babaquice sem tamanho, Deus do céu”, postou. Mais tarde, Oliveira Filho excluiu a publicação e se retratou. “Não reflete em nada no meu trabalho. Quem gosta de cultivar as tradições que o faça. Acho que o tradicionalismo de vocês é bem maior do que eu penso, certo?”.

Seis meses depois do caso, ele voltou a falar do assunto com a Gazeta do Sul e disse que não é contra o tradicionalismo. Para Oliveira Filho, a diferença que a repercussão pode ter está ligada a quem posta o fato no Facebook. “Quando não é alguém público, não dão importância demasiada à publicação”, acredita. Quanto ao desfecho que sua postagem tomou no ano passado, o ex-secretário não se considera prejudicado. “Sou advogado e não político. Ocupava o cargo e dava 100% da minha capacidade. Claro que houve alguns transtornos. Posso afirmar que a maioria da população acha a mesma coisa que postei”, reforçou.

 

Relação de amor e ódio

Ferramenta usada para a aproximação de pessoas, a rede social na internet também pode resultar no término de relacionamentos. Aliada até mesmo em investigações, ela contém informações que podem mostrar o caminho a ser seguido por quem tenta revelar mentiras. Conforme o detetive Silveira (que prefere manter seu nome completo em sigilo), o Facebook facilita o processo investigativo porque dá pistas do que o possível traidor costuma fazer e com quem se relaciona. “Como eu preciso de provas em vídeo e fotos, é necessário sair a campo. Mas as informações iniciais, eu consigo nas redes sociais”, explica.

No entanto, de acordo com o investigador, comentários ingênuos podem levar a insinuações que não se comprovam durante o processo investigatório. “Tem muita gente carente e confusa usando a ferramenta. Porque são simpáticas demais, os companheiros desconfiam que possam estar sendo traídos quando, na verdade, os usuários nem se conhecem pessoalmente. Mas já descobri casos em que a traição virtual se confirmou”, conta Silveira.

É o caso da santa-cruzense Melissa*, que utilizava o Facebook para se comunicar com o namorado, morador de outra cidade. Um dia ela tentou entrar no perfil usando a data de aniversário dele como senha. “E deu certo. Ou nem tanto, pois lendo as mensagens que ele mandava para as outras meninas, descobri que era muito ‘cachorro’. Nos finais de semana que eu ia para a cidade onde ele morava, ele dizia para as outras que precisaria viajar a trabalho e não atenderia aos telefonemas”, conta.

Segundo Melissa, o rapaz dizia as mesmas coisas românticas para todas as pretendentes. “Em uma das conversas, quando uma menina perguntou por mim, ele disse que ‘o que os olhos não veem o coração não sente’”, revela. Mas, como geralmente os erros que cometemos e as situações nas quais nos envolvemos sem sucesso deixam alguma lição, Melissa brinca. “Depois de tudo isso, romance à distância eu não quero mais. E, de preferência, quero um namorado sem Facebook.”


Publique apenas o que falaria ao chefe

Com o aumento da exposição da vida pessoal nas redes sociais, as empresas têm cada vez mais acompanhado o que os funcionários fazem na internet. Os empregadores também se preocupam com a forma como eles podem ser citados no meio virtual e a imagem que poderão ter a partir de postagens. Por conta disso, há uma tendência de empresas sugerirem, por meio de um manual de conduta, a postura considerada adequada na rede. Especialistas também aconselham a divulgar apenas o que você falaria em frente ao seu chefe, para que uma publicação não o prejudique no ambiente de trabalho.

Gerente comercial de uma empresa de Santa Cruz do Sul, Francisco* diz que já teve um caso de demissão no local onde trabalha. Um funcionário teria desabafado no Facebook e se referido à empresa de maneira pejorativa. “Outro colega viu a publicação e me informou. Como essa pessoa já não estava bem no trabalho, o que ela disse contribuiu para que fosse demitida”, conta. Segundo Francisco, é comum funcionários utilizarem a ferramenta no horário de expediente. “Curtem e comentam coisas que não têm nada a ver com o trabalho. As pessoas não lembram que existem outros usuários enxergando tudo.”

Outra falha cometida nas redes sociais é a falta de cuidado com as fotos compartilhadas. Nem sempre as atualizações são vistas apenas pelos amigos. Por meio de perfis de terceiros, os gestores também acabam tendo acesso às publicações. “Hoje em dia não precisamos mais ligar a uma empresa para pedir referência do funcionário. Podemos ver o que ele pensa e como é no Facebook. As redes sociais são ferramentas maravilhosas, mas é necessário saber usá-las a favor. Isso, sem contar que as informações publicadas no Facebook podem servir de provas em processos trabalhistas”, afirma.

Mesmo antes de conseguir um emprego, as redes sociais também podem ser um empecilho, já que influenciam nos processos de seleção. Além de utilizar a ferramenta para entrar em contato com os candidatos, empresas de Recursos Humanos (RH) analisam os perfis antes de efetivar a contratação. No caso de seleções para empresas mais conservadoras, as fotos dos candidatos também servem de referência.

As publicações podem até não interferir em um primeiro momento, mas sim durante o processo de seleção. “Não vamos deixar de chamar alguém porque preferimos estabelecer um contato pessoal para conhecer melhor o candidato. Mas, a partir do momento em que estivermos em dúvida, o que é postado nas redes sociais será levado em conta”, revela a assistente de RH Juliana Oliari.

 

EVITE PUBLICAR

– Comentários do trabalho ou chefe
– Fotos com uniforme da empresa
– Discussões entre colegas
– Bastidores da empresa
– Comentários sobre concorrentes
– Erros excessivos de ortografia
– Opiniões preconceituosas
– Informações da vida íntima

*Nome do entrevistado foi alterado para preservar a identidade


fonte: Jornal Gazeta do Sul