Archive | November, 2011

Eu e as identidades virtuais – um pouco da minha história

12 Nov

Tudo começou em 1997 quando meu pai comprou um computador com conexão discada para a Internet. A concorrência pelo uso era grande, afinal, éramos cinco irmãos, ávidos por novidades que aquela “caixinha mágica” parecia transbordar, especialmente com a “descoberta” trazida por minha irmã do tal canal “#pelotas” do IRC (Internet Relay Chat).

Como em toda boa família cristã, para não gerar brigas meus pais restringiram os horários de uso ao computador ao período das 19h até às 24h, dividindo o tempo de uso total pelos cinco irmãos. Sendo eu a de número três, consegui ficar com o terceiro “melhor horário”, ou seja, com o tempo das 21h até às 22h (visto que quanto mais tarde, melhor era, pois o IRC transbordava de jovens que passavam a madrugada interagindo através da Rede). O fato de estar conectada aos meus amigos em um ambiente virtual que congregava milhares de pessoas do mundo todo a partir de um protocolo de comunicação em tempo real era algo muito animador, especialmente para uma pré-adolescente.

Os cinco irmãos (fotografia de Carlos Recuero)

Os cinco irmãos (fotografia de Carlos Recuero).

Além disso, eu tinha a possibilidade e a necessidade de criar um apelido (algo que eu sempre quis ter e nunca tinha tido até então), afinal, todos  tinham um “novo nome” que os caracterizava e  os tornava conhecidos naquele mundo repleto de letrinhas e símbolos, pois fazia parte do “jogo” de identidades do IRC. Este “nome” era o  nickname: a minha identificação naquele universo. Apesar de não ter um apelido no mundo concreto, utilizei um nome que meu pai e minha avó costumavam me chamar carinhosamente (e muito raramente) sempre com um tom mais debochado: “Rebs”.

A partir daí, agreguei à minha identidade concreta mais uma faceta (surgida no virtual) que caracterizaria para sempre a minha pessoa. Com isso, passei a ser a “Rebs” para os meus amigos, familiares e colegas (e não mais a Rebeca). Desde então, utilizar a Internet para interagir foi algo natural que transformou completamente a minha vida.

Logo depois do IRC, passamos para os blogs (como diários pessoais) e para o Messenger e, posteriormente, para os sites de redes sociais (como o Orkut e o Fotolog.com). Nestes espaços, o mesmo mecanismo de “criar” e expor a sua identidade, o seu “eu” era base para o processo de comunicação e interação entre os “internautas”. A prática se tornou comum entre adolescentes e jovens que cresciam junto com estes sistemas de interações virtuais e suas tecnologias. Mostrar-nos aos amigos e receber comentários, elogios através da Internet por causa disso, era divertido e “moda” na época.

Ao entrar na faculdade de Comunicação Social, novamente a curiosidade com a identidade virtual nestes lugares online foi alimentada, especialmente quando consegui uma bolsa de iniciação científica para um projeto de estudos relacionados às formações identitárias de usuários do site de redes sociais Orkut. Desde então, engajei-me em vários outros sites de redes sociais (Facebook, Last.fm, MySpace, Flickr, etc) onde interagi, descobri e me surpreendi com as apropriações e usos diversos que usuários faziam destes sistemas e revelavam em suas identidades coletivas e particulares.

Assim, por três anos da faculdade estive engajada nestes estudos em Cibercultura e, o meu trabalho de conclusão de curso não poderia ser diferente: foquei as formações identitárias baseadas nos tipos de capital social em integrantes do mundo virtual do Second Life. Curiosamente, a minha orientadora era a minha própria irmã.

Entusiasmada com as pesquisas e congressos que participava, optei por fazer um mestrado, prestando seleção no mesmo ano de minha formatura na Comunicação. Ao entrar no mestrado de Ciências da Comunicação da UNISINOS, foquei minha pesquisa na cibercultura, trabalhando com a construção de territórios e lugares em mundos virtuais, associando-os diretamente com fatores identiários do sujeito que utilizava a ferramenta.

Paralelamente aos anos de construção da dissertação, surgiam os “joguinhos sociais” nos sites de redes sociais (conhecidos por social games) que pareciam ser uma forma divertida de descontrair do processo árduo de construção do trabalho de mestrado, afinal, além de jogar com e contra os meus próprios amigos do site de redes sociais, eu tinha a possibilidade de experimentar ser dona de um grandioso zoológico, de um restaurante, ser uma fazendeira ou, até mesmo, a chefe de uma grande máfia de ladrões.

Outra vez a questão da identidade virtual tomava conta do meu interesse sem que eu percebesse que ela seria, novamente, a impulsionadora para uma nova fase da minha vida: o doutorado.  Desta vez, os social games invadiam minha proposta de estudo não apenas por instigarem a busca pelo entendimento de certos comportamentos humanos centrados em suas identidades nestes espaços virtuais, como por serem uma divertida forma de trabalhar em uma pesquisam… especialmente uma pesquisa de doutorado!

…O resto da história estou escrevendo agora. =)